terça-feira, 30 de agosto de 2016

Porque comer é uma viagem II.

Nesta postagem a viagem será através dos sabores portenhos experimentados em nossa visita à Buenos Aires, AR e Colonia del Sacramento e Montevideo, UY.

De colita de cuadril (um tipo de corte bovino servido nos dois países) aos deliciosos pintxos do Bar e Restaurante Sagardi (Cocineros Vascos) grupo que possui restaurantes na Espanha, Argentina, Inglaterra e em breve abrirá uma casa no México, Amsterdã, Xangai e Nova Iorque.

Foram dias de muita comilança, mas andamos muito e queimamos as calorias todas. Claro, que esta blogueira aqui tirou uma soneca quase todos os dias depois do almoço, hábito de “echar una siesta” adquirido no período em que vivi na Espanha, afinal, têm coisas que a gente não esquece, né?

(Colita de cuadril a la parrilla - Foto ilustrativa extraída do Google imagens)

Na nossa primeira noite em Buenos Aires fomos jantar no restaurante “Las Cañas” que fica dentro de um grande complexo cultural, tipo uma galeria chamada “Paseo La Plaza”, com cinemas, teatros, restaurantes e lojas na agitada Avenida Corrientes, eu pedi uma “colita de cuadril a la parrilla” e recebi um pedaço de carne digno do Fred  Flintstone, mas dei conta do recado, meu marido preferiu um espaguete com frutos do mar. Nos dois países visitados os cortes de carne bovina são um pouco diferentes do que estamos acostumados no Brasil, dê uma olhada na ilustração para as partes e/ou nomes para a chamada carne de vacuno que compreende ternera, vaca ou buey.

(Ilustração extraída do site Blueberg)

Ainda em Buenos Aires, provamos massas (pastas), saladas, sobremesas (postres), pollo a la parrilla (partes do frango assado sobre o calor da brasa de lenha) sempre acompanhados de batatas rústicas ou purê de batata e/ou alguma salada. Dificilmente você terá pratos acompanhados de arroz e não espere feijão, esse hábito alimentar é brasileiro, mas garanto que não fará falta.

(Medialunas - Foto ilustrativa extraída do Google imagens)

Vale destacar as mediaslunas argertinas que todo Café que se preze oferta, são aqueles pães tipo croissant feitos com manteiga (manteca) ou gordura (grasa) e o churros com chocolate quente, este experimentamos num Café tradicional de BsAs, o “La Giralda”, também na Avenida Corrientes.

(Churros com chocolate de "La Giralda Cafetería" em Buenos Aires - Foto: Meg Mamede)

As empanadas vendidas em cada esquina de BsAs são uma delícia à parte, com recheios dos mais diversos e assadas, dá para comê-las até frias, aliás fizemos isso um dia, compramos algumas, entre a Avenida 9 de Julio e Calle (rua) Rivadavia, e cruzamos as ruas até nosso hotel comendo empanadas, nada mais argentino que isso.


(Empanadas argentinas são aqueles pastéis assados de carne, frango ou verdura - Foto: Google imagens)
O tiramisú do "La esqina de Garufa", esquina da Avenida de Mayo com Lima estava uma delícia, assim como o vinho San Felipe da Bodega La Rural, vinho simples para os padrões de aficionados e entendidos mais exigentes, mas que para nossa noite foi perfeito... A garrafa (botella) daria um lindo abajur mas não dava pra por na bagagem pois ainda tínhamos muita viagem pela frente, mas a rolha (corcho) trouxe de todos os vinhos que tomamos ao longo dessas férias, afinal colecionamos desde o nosso primeiro vinho juntos.

(Tiramisù de La esquina de Garufa - Foto: Meg Mamede)

E a viagem gastronômica segue...

(Café y Bar Plaza Dorrego - Bairro de San Telmo, BsAs. - Foto: B.A Keller)

Já o passeio pelo emblemático bairro de San Telmo no domingo, ocasião em que acontece a famosa Feria de San Telmo foi demais, tomamos um café (aliás, um balde de café) no tradicional Cafe y Bar Plaza Dorrego fundado em 1870 e declarado “Notable de Buenos Aires” e depois de caminharmos pelas ruas tomadas pela feira, onde eu fiz questão de comprar um avental de cozinha pra mim, fomos ao Sagardi,  iDiós del cielo!, o templo da boa comida basca em terras portenhas, aquela barra de pintxos me levou de volta aos tempos em que vivi em Euskal Herria, amei poder experimentar as iguarias preparadas ali, eu fui de vinho Malbec (uva emblemática da Argentina) do “Valle do Uco” em Mendoza,  ele foi  de “caña de cerveza” e provamos aquelas delícias sem culpa... Aliás, se tem algo que pode trazer muita felicidade, definitivamente, essa coisa é a comida!

(Barra de pintxos do Sagardi Buenos Aires, AR - Foto: Sagardi)
(Alguns dos pintxos degustados no Sagardi BsAs. - Foto: Meg Mamede)

Estivemos visitando o Estádio do Boca Juniors “La Bombonera” e o Museo Boquense, na saída estávamos com fome e para fugir do óbvio, onde hordas de turistas deslumbrados se apinham para comer enquanto assistem a shows de tango para turistas, escolhemos comer num boteco do bairro, um restaurante decadente mas com ótima comida, lá provamos “costillas de buey a la parrilla” (costelas de boi) o chamado “asado de tiras”. iBuenísimo!

(Restaurante no bairro La Boca, no entorno de "La Bombonera" - Foto: Rogério Oliveira)

(Asado de tiras, foto ilustrativa extraída do Google imagens)

Chegava a hora de cruzar o Rio da Prata destino à Colonia del Sacramento, Uruguay, pegamos o SeaCat, um braço low coast e mais rápido do Buquebus e em uma hora estávamos na tranquila e encantadora cidade uruguaia de colonização portuguesa e espanhola. Não foi diferente, ao longo dos três dias que passamos ali estivemos caminhando e comendo muito. Lugar encantador, tranquilo, com gente educada e cortês, hospitaleira no ponto certo. De nossa passagem pela cidade destaco o almoço da chegada, no Restaurant y Parrilla Santa Rita, onde Rogério comeu uma paella e reencontrou “Patricia”, algo inevitável, esse amor começou em 2014 quando estivemos em Montevideo e desde então ela se tornou uma doce lembrança na vida dele ou melhor um fino amargor levemente encorpado. 

(Interior do Restaurante y Parrilla Santa Rita em Colonia del Sacramento, UY - Foto: Meg Mamede)

(Nova campanha da cerveja uruguaia Patricia)
Eu escolhi um “Dorado a la parrilla con patatas rusticas”, o peixe estava ótimo e não tive como escapar da soneca depois do almoço, aliás a Posada Del Virrey bem perto do píer e da pequena marina, onde nos hospedamos, é um lugar encantador e a vista do nosso quarto deu-nos vontade de ficar ali sem data para voltar pra casa. Uma curiosidade, enquanto comíamos conhecemos Gina, uma fotografa francesa amiga dos donos do restaurante que vive em Colonia, no campo, há 40 anos, ela trocou os trabalhos do Le Monde National Geographic pelo trabalho fotográfico junto aos povos indígenas da Argentina e Uruguai, segundo ela, sua maior compensação é dar voz àquela gente, Gina passeava com Che-Che seu amigo(a) de patas.

(Dorado a la parrilla con patatas rusticas - Foto: Meg Mamede)

Na noite seguinte eu queria que o Rogério experimentasse um pulpo a la plancha, um polvo, e buscando no Google encontrei um charmoso restaurante chamado “Pulpería de los Faroles Restaurant” bem perto de onde estávamos hospedados, fiquei animada e à noite saíamos para nosso jantar romântico, mas consultando o cardápio do restaurante (que fica na parte externa do estabelecimento, uma praxe em todos os locais em que estivemos) percebi que não tinham polvo ou frutos do mar, claro né! Rio da Prata e de água doce, teriam que trazer o produto de outro lugar e não seria fresco. Dããã!. De qualquer maneira curiosa que sou perguntei ao garçom (camarero) que arrumava mesas na rua, o porque daquele nome se eles não tinham pulpo ou frutos do mar. Ele muito educado e solicito me explicou que o nome era uma alteração de “Pulquería” local onde se reuniam para tomar o pulque (um tipo de bebida muito comum no México, elaborada a partir do suco fermentado do agave ou folhas do maguey, consumida tradicionalmente na Mesoamérica) que foi trazida por visitantes/viajantes a Colonia há anos atrás e o nome acabou sendo mudado para “pulpería” e que eu não fui a primeira a procurar por “pulpos” no restaurante. (*pesquisando sobre a palavra “pulpería” encontrei vários textos, entre eles um que me pareceu interessante e que diz entre outras coisas que a palavra remete ao que para nós seriam aqueles armazéns antigos de vilas e do campo onde se podiam comprar alimentos e outros gêneros enquanto se tomava alguma bebida). 

(Interior de "El Drugstore" em Colonia del Sacramento, UY - Foto: Adilson Ferreira, extraído do FB)
(Fachada externa de "El Drugstore" em Colonia del Sacramento - Foto: Luciano Schmidt, extraído do FB)

Uma vez sem pulpo consultamos outras opções de restaurantes e terminamos por jantar num lugar pitoresco chamado “El Drugstore”, onde comi as melhores patatas rusticas da viagem.

O dia amanhece e continuamos nossa viagem pelos sabores locais...

(O educado Ezequiel do Colonia Sandwich Coffee Shop - Foto: Google imagens)

(Café com leite na charmosa cafeteria de Ezequiel e Laura em Colonia del Sacramento - Foto: Meg Mamede)


Antes de seguirmos para capital uruguaia, passamos pelo encantador Café que fica na Avenida  principal do centro histórico, na General Flores, o Colonia Sandwich Coffee Shop onde o jovem Ezequiel e sua esposa Laura servem deliciosos bolos, cupcakes, sanduíches, sopas e uma variedade de cafés, tudo preparado por eles. O lugar tem um charme todo especial, pequeno, com mesas na calçada, em dias frios eles oferecem uma manta quentinha para que o cliente se aqueça enquanto degusta alguma de suas iguarias. Conversei com Ezequiel e coincidentemente, dentre os muitos lugares da Europa onde ele trabalhou em cozinhas e estudou, ele esteve uma temporada em San Sebastian (Donostia) no País Basco, berço da gastronomia de autor e contemporânea, lugar onde os sabores tradicionais convivem e ora se fundem com a culinária de vanguarda. Com certeza Ezequiel trouxe consigo uma grande e deliciosa bagagem, aprendizado que demonstra no preparo dos alimentos e no trato com as pessoas. Eu recomendo um pit stop nesse local, para um café ou uma sopinha revigorante antes de seguir viagem.

(Uma das muitas parrillas espalhadas pelo Mercado de Montevideo - Foto: Rogério Oliveira)

Chegamos a Montevideo, um vento frio nos recebeu e as lembranças da visita anterior à cidade nos animou, afinal íamos desfrutar novamente das delícias da culinária local, voltar ao Restaurante Tannat (Locos de Asar - autentica parrilla uruguaya a la leña) e conhecer outras opções. Da primeira vez que estivemos lá fizemos uma incursão pelo Mercado Municipal próximo do Porto, descendo pela Peatonal Sarandi, como um calçadão para circulação só de pedestres e nos aventuramos em uma parrilla local, desta vez abrimos mão e apesar de ir até o mercado novamente optamos por almoçar no Tannat na Calle San José paralela a Avenida 18 de Julio, lugar tradicional de culinária uruguaia com parrilla e pratos mais elaborados, local tranquilo, bom atendimento e comida boa.

(Interior do restaurante Tannat em Montevideo - Foto: Tannat / Locos de Asar)

No almoço do sábado pedimos um ravióli de espinafre com queijo de cabra e molho de cogumelos e espaguete com frutos do mar, em seguida optamos por uma sobremesa autoral e fomos de sorvete de vinho Tannat servido numa base crocante de amêndoas (tuile) com calda de mirtilo, já no jantar de domingo pedimos novamente o espaguete com frutos do mar que o Rogério adora e eu pedi Malfatti (nhoque) recheado de salmão com molho cítrico de limão siciliano, seguido de crumble de maçã com sorvete artesanal de canela, sempre acompanhado de um bom  vinho Tannat (uva emblemática do Uruguay).
(Nosso cardápio do jantar no Tannat - Fotos: Meg Mamede)

(Nosso cardápio do almoço no Tannat - Fotos: Meg Mamede)

Para o jantar de sábado procurei no Google por um restaurante que oferecesse culinária basca e para minha surpresa encontrei o Pacharán – Taberna Vasca, bem próximo do hotel, também na Calle San José, para este é necessário reservas e entendemos o porque, a comida é excelente e o local não é tão grande, fica na parte superior da entrada del Frontón Vasco que abriga o restaurante. Interessante que conversando com a simpática garçonete que nos atendeu (Rogério notou a beleza da sósia da Rosario Dawson) ela nos esclareceu que o restaurante Pacharán ( Patxaran em euskera, nome do licor feito de endrinas ou mirtilo para nós, que é muito consumido no País Basco e Espanha) oferece comida mediterrânea com influência basca, afinal, estamos na América do Sul e os insumos são diferentes daquela região da Europa tão influenciada pelos produtos da Cantábria, de qualquer maneira os sabores estão carregados de toda simbologia e respeito que o povo basco costuma destinar aos alimentos e durante a semana de segunda a sexta das 12 as 15h30 é possível se divertir com os sabores da barra de pinchos (pintxos em euskera). 

(Interior do Pacharán - Taberna Vasca anexo ao Centro Vasco Euskal Herria, Montevideo - Foto: Google Imagens)

Que noite saborosa, pratos muito bem feitos e bem servidos, pedimos Langostinos al Ajillo, Patatas Bravas con salsa picante y criolla, seguido de uma Sopa Izeko Maite (querida tía) a base de vegetales, salsa de tomate gambas y pescado para mim e Pulpo a la Plancha con papas confitadas y pimentón ahumado para o Rogério, as porções foram tão generosas que não pedimos sobremesa, mas encerramos a noite bebericando um Pacharán.

(Langostinos ao alho e óleo e batatas bravas, uma pequena mostra da porção generosa que comemos de entrada no Pacharán - Taberna Vasca em Montevideo, UY - Foto: Meg Mamede)

(Pulpo a la plancha - Foto: Meg Mamede)

(Sopa Izeko Maite - Foto: Google imagens)

No domingo, nosso último dia em Montevideo, queríamos almoçar no “Jacinto Café & Restaurant” na esquina da Sarandí com Alzaibar, mas descobrimos que ele não abria, que tristeza! Tínhamos gostado muito do lugar, havíamos parado para um café na manhã do sábado por volta das 11h, ocasião em que aproveitei para provar um Cabernet Sauvignon Blanc da Bodega Garzón (Pueblo Garzón na região de Maldonado, UY) da qual recomendo os deliciosos azeites, gentilmente a garçonete nos serviu uns pedaços de pães artesanais que eles mesmo fazem e de focaccia acompanhados de azeite da Finca “O’33 José Ignacio” (Punta del Leste também na região de Maldonado) para acompanhar o vinho, fiquei encantada com a delicada decoração local, repleta de ervas aromáticas, os aromas da comida sendo preparada e aqueles belos pães artesanais prontinhos para serem devorados.

(Jacinto - Restaurant & Café em Montevideo, UY - Fotos: Meg Mamede)
(Jacinto - Restaurant & Café em Montevideo, UY - Fotos: Meg Mamede)

Gente! As férias acabaram, mas as recordações e os sabores ainda reverberam na nossa memória e isso é que faz das viagens experiências únicas, mais do que nunca adotamos a máxima de que consumir experiências e muito melhor do que acumular coisas.


¡Ojala! Que nós tenhamos mais viagens como esta.


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