terça-feira, 12 de abril de 2016

Cinema doce e indigesto mostrando os rumos da alimentação no mundo.



Nesta semana pesquisando alguns festivais internacionais de cinema que aconteceram nestes primeiros meses de 2016 encontrei filmes diferentes entre si, mas todos com um 'que' meio indigesto. A maioria são documentários e foram produzidos na Holanda, Canadá, Espanha, Singapura, Alemanha e Áustria.

Diferente do cinema comercial estes filmes têm um público específico e uma distribuição muito peculiar, a maioria deles são vendidos diretamente no site dos produtores ou em sites de vendas como iTunes e Amazon, dificilmente veremos alguns desses títulos para locação ou nos cinemas brasileiros, salvo como sempre menciono em minhas postagens em festivais de cinema como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Rio de Janeiro - Int'l Film Festival ou no Slow Filme - Festival Internacional de Cinema e Alimentação que acontece em Pirenópolis, GO, com sorte alguns títulos irão parar no Netflix ou serão exibidos em canais pagos.

Vendo os trailers e lendo alguns comentários e resenhas deu para perceber que essa leva de filmes traz temas muito relevantes e demonstram preocupação com o futuro da alimentação no mundo. Ora com doçura, ora com luxúria e humor ou mesmo com acidez, essas produções são títulos interessantes para quem quer sair da mesmice dos roteiros água com açúcar do cinema pipoca e quer ingressar no mundo do cinema reflexivo e engajado que pesquisa, experimenta e muitas vezes tem papel determinante no resultando de alguns processos.

O futuro da nossa alimentação passa pela soberania dos povos, pela segurança alimentar, pela capacidade de produção e a exaustão do solo, pela manutenção e salvaguarda das tradições alimentares, pelo respeito à natureza e ao Homem que aprendeu domesticá-la e fazer uso do que ela tem de melhor sem desperdício, desrespeito e ganância e também pelas lentes de alguns diretores e produtores de cinema.



O documentário "Portrait of a Garden" título original "Portret van een tuin" de Rosie Stapel (Holanda, 2015) esteve presente na mostra Culinary Cinema do Berlinale, festival de cinema de Berlim na Alemanha no mês de fevereiro e em setembro fará parte da programação do 7o. Slow Filme que acontece em Pirenópolis, GO. O filme conta a história de um jardim - um pomar - e dois homens, um jardineiro experiente de 85 anos e seu ajudante, um rapaz mais jovem que bebe dessa fonte de conhecimento que é seu mestre. Juntos eles falam sobre horticultura e reconstroem um pomar repleto de cítiricos, uvas, peras, flores e abelhas, enquanto apreciam a beleza da passagem das estações do ano até o momento da colheita.


Do mesmo diretor de "Taste the waste" Valentin Thurn, o documentário "10 Billlion what's on your plate?" (Alemanha, 2015), aborda um cenário em 2050 com uma a população mundial de cerca de dez bilhões de pessoas. No meio do debate acalorado sobre a segurança alimentar, ele traz um olhar abrangente e analítico para o enorme espectro da produção global de alimentos e de distribuição - a partir de carne artificial, insetos, a agricultura industrial para auto-cultivo em moda. O diretor, autor de best-seller, defensor e lutador das causas da alimentação Valentin Thurn tem buscado através de seus filmes soluções em todo o mundo através da inovação e visando nosso futuro.



"Land Grabinng" documentário de Kurt Langbein (Áustria, 2015) traz a questão da grilagem de terras, uma prática que o Brasil conhece de perto mas que não é privilégio só nosso. O filme alerta para o risco que terras com potencial agrícola correm em todo o mundo. A demanda por terra aumentou e os investidores estão mirando localidades onde possam cultivar alimentos para exportação, biocombustíveis ou simplesmente comprar terras para lucrar. O filme mostra o mundo dos investidores no agronegócio internacional e como a política da União Européia está envolvida. A grilagem de terras não acontece só na Ásia e na África, mas também na Europa, tendo por celeiro a Romênia. "Land Grabinng" vem com um olhar mais atento para a Europa e desafia os investidores e suas práticas. Este filme esteve presente nos festivais de cinema: Cambridge Film Festival, Docville na Bélgica e IDFA.



"Vleesverlangen" Desejo de Carne, numa tradução literal, é um documentário de Marijn Frank (Holanda, 2015) que aborda com algum humor e certa luxúria questões relativas ao consumo de carne, o vegetarianismo e a indústria da carne no mundo. Ela se vale de suas próprias escolhas por comer ou não comer carne em fases da sua vida, faz visitas à açougues, chefs de cozinha e traz as justificativas dadas pelas pessoas que optaram pelo comsumo de carne. O que torna o filme tão especial e admirável, é um tipo raro de honestidade e o tom intimista muito pessoal da diretora, também protagonista no filme, se encaixando perfeitamente com um assunto que tem muitos lados e emoções.



"Tony" é um documentário de Benthe Forrer (Holanda, 2015). O filme mostra o trabalho da empresa holandesa "Tony Chocolonely" na produção de chocolate 100% livre de trabalho infantil e trabalho escravo. O documentário conta a história de um grupo de jovens jornalistas holandeses cuja jornada começou em 2003 em uma viagem rumo a um mundo de cacau livre de escravidão. "Tony" combina uma riqueza de material de arquivo com novas imagens para reconstruir a engraçada e comovente, mas acima de tudo, inspiradora história. O filme mostra como é difícil eliminar erros básicos e injustiças de um sistema global, mas não é impossível. Com uma grande dose de humor e uma perseverança incansável, este trabalho tornou a marca 'Tony Chocolonely' a maior empresa de chocolate da Holanda.


"The Singhampton Project" é um documentário inspirador e instigante que registra a ambiciosa colaboração "farm-to-table" entre os chefs canadenses Michael e Nobuyo Stadtlander e um paisagista (do campo), o francês Jean Paul Ganem. Filme de Jonathan Staav (Canadá, 2014), mostra uma fazenda que produz direto para mesa e volta para as equipes do chef em parceria com a paisagem de um artista que cria sete jardins (hortas) nos quais os produtos vão crescer, seguido da colheita e do ato de cozinhar, para ao final servir refeições durante 20 noites, para até 800 pessoas no total. Decidindo a fazê-lo durante o ano mais seco em 65 anos, o chef Michael adere ao seu plano para irrigar com as próprias mãos a produção. Foi um longo verão aquele.


"Campo a través" é um filme de Pep Gatell (Espanha, 2015), um documentário filosófico e teológico sobre Mugaritz (restaurante localizado no País Basco). A melhor maneira de definir e avaliar o que acontece no espaço comandando por Andoni Luis Aduriz, é, de acordo com La Fura dels Baus, uma perspectiva etológica sobre o comportamento desse grupo de seres humanos que habitam a Vila Otzazulueta, na fronteira entre Astigarraga e Errentería. Trata-se de um depoimento que conta com um único roteiro, os pensamentos e comentários da equipe enquanto imagens figurativas os acompanham. Aos poucos encontramos os motores que movem o Mugaritz, as ideias que partem de seu trabalho, o que significa para a equipe alcançar a excelência e o sucesso, como eles sofrem e desfrutam ... resumindo, como se cria e como se destrói o Mugaritz constantemente.


Eric Khoo diretor de "Recipe" (Singapura, 2013) um filme encomendado pelo governo e exibido na TV local, é também o diretor de "Wanton Mee" (Singapura, 2015) filme que conta a história de Koh Chun Feng, um crítico gastronômico de meia idade que após descobrir que sua casa será demolida e com a carreira em declínio, passa as noites escrevendo sobre a importância da comida de rua para vida daquela sociedade, decidindo refletir sobre sua própria vida e a evolução de Singapura através da comida local.

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