quinta-feira, 10 de março de 2016

Divagando sobre comida e cinema.


A cada dia tenho visto mais filmes onde a comida, seja em uma cena, seja ao longo de todo o filme é a protagonista, a alimentação ganhou bastante espaço nas produções para TV e cinema nos últimos tempos. É certo que tem produção ruim, fruto da falta de pesquisa, da falta de recurso ou mesmo de talento e isso não é privilégio só do segmento que chamo de Food Films. O fato é que nos últimos anos a alimentação saiu do âmbito doméstico e ganhou destaque. Mas, até que ponto esse destaque é positivo?

De chefs renomados e estabelecimentos repletos de estrelas a estudiosos da cadeia alimentar, passando por pequenos agricultores até chegar à grande indústria, esse mercado está dando o que falar (e o que comer também).

Na era da informação, quando tudo chega até nós em tempo real, comer se tornou algo quase perigoso tamanha quantidade de informações indigestas que temos, tais como: o bacon é o vilão; os produtos light contém mais açúcar que os tradicionais; o frango está cheio de hormônios e antibióticos; o milho e a soja são organismos geneticamente modificados (GMO ou OGM); o café, o chocolate e o tomate, entre outros produtos são fruto de trabalho escravo; a obesidade infantil tem índices alarmantes na América; tomar leite? ora, não precisamos dele; etc...

Outro ponto negativo que destaco é a alta dos preços devido à gourmetização de tudo, da pipoca do cinema à tapioca em frente à faculdade. Tem até água goumert, um despropósito se lembrarmos que em algumas regiões do país a seca é algo real e recorrente e em outras partes o saneamento básico e a água potável inexistem. Enquanto a palavra gourmet em sua acepção está diretamente ligada ao produto de qualidade e, em sua origem francesa designava os bons apreciadores de vinho, os verdadeiros conhecedores, aqui o conceito veio para passar aquela ideia de glamour e legitimar a necessidade que o brasileiro tem de ostentar “coisas”, talvez seja o ranço da nossa latinidade (veja a quantidade de brasileiros indo e vindo de Miami carregados de produtos ou importando conceitos europeus para esta terra tropical) na busca de igualar-se ao "outro", na busca pelo dito “chic”, esquecendo que ser chique e ser simples e no caso da comida é valorizar o que vem da nossa terra, é reinventar produtos resgatando receitas e modos de preparo locais, valorizando os sabores e saberes do nosso povo, ser chique é não pagar os tubos por um prato gourmet só para depois publicar a foto nas redes sociais, recurso comum na era do fetiche, na era da espetacularização de tudo, inclusive da comida.

E onde entram os filmes e séries de TV? Bem, eles são instrumentos que propagam tudo isso, podem ser esclarecedores ou puro entretenimento, depende do que procuramos e do que chega até nós. No Brasil a tendência é a exibição e distribuição de produções que garantam bilheteria, os muitos e bons documentários da categoria que chamo de Food e Wine Films e sobre os quais geralmente comento, não têm muito espaço nas salas brasileiras, salvo em alguns festivais de cinema e são ótimas opções para quem tem interesse pela gastronomia.

Sai um pouco do costumeiro roteiro quando falo de filmes aqui, devido a minha pesquisa sobre a produção audiovisual deste segmento, da leitura de alguns livros, e em especial por conta da minha curiosidade em provar e conhecer sabores e culturas diferentes. É essa curiosidade que me faz comentar na fanpage e no blog sobre filmes e séries da TV mundial e trazer um pouco de informação para quem como eu, tem interesse pelos temas alimentação e cinema. 

Então, vamos para o prato principal, as indicações da semana.


“That Sugar Film” título em português “Açúcar” documentário (Austrália, 2014) onde o diretor e também ator Damon Gameau é orientado por cientistas e nutricionistas e embarca em uma dieta rica em açúcar, ingerindo cerca de 40 colheres de chá desse elemento por dia durante dois meses. O problema é que ele faz isso sem consumir qualquer refrigerante, chocolate ou sorvete. Só ingere alimentos considerados "saudáveis", aqueles que encontramos nas prateleiras dos mercados indicados como “light” e “saudável” em seus rótulos. Além de mostrar os efeitos do açúcar sobre o seu próprio corpo, o documentário debate a indústria alimentícia, que cada vez mais manipula a verdade sobre seus produtos ao invés de promover a conscientização da população. O filme por ser visto na íntegra no youtube.

"The mind of a Chef" série de TV criada em 2012 (que se estendeu até 2015) para o canal independente PBS (EUA), disponível também no Netflix, narrada e produzida Anthony Bourdain. São quatro temporadas, cada uma com 16 episódios, que exploram os processos criativos de famosos chefs internacionais. A série acompanha os chefs na 1ª temporada: David Chang, na 2ª temporada: Sean Brock, na 3ª temporada: Edward Lee e Magnus Nilsson e na 4ª temporada: Gabrielle Hamilton e David Kinch, combinando culinária, história e ciência em momentos para além da cozinha, como em mercados, viagens ou até mesmo na mesa de um bar com amigos, sempre em busca de inspiração.



“Udon” filme de Katsuyuki Motohiro (Japão, 2006) drama com pitadas de humor sobre a relação entre jovem aspirante a ator e seu teimoso pai fabricante de macarrão na cidade de Kagawa. Cansado de sua cidade natal, onde nada acontece, Kosuke parte para Nova York com sonhos de se tornar famoso, seis meses depois retorna à casa sentindo-se derrotado e endividado. Esperando por ele estão os seus velhos amigos, uma irmã carinhosa, um pai descontente e... uma tigela de udon (macarrão). Tudo em sua cidade gira em torno do udon e a região dá nome a um tipo muito peculiar de udon o "Sanuki Udon". Entediado pela mesmice da cidade, ele nem imagina que o resto do mundo está prestes a descobrir a iguaria produzida por eles. De volta ao Japão e enquanto seu pai espera que ele retome os negócios da família na fabricação de udon, Kosuke consegue um emprego em uma revista de notícias local, mas ao invés de escrever sobre sua paixão, o cinema, só lhe resta escrever artigos falando de macarrão, artigos que mal sabe ele, ajudarão o udon a se tornar uma mania nacional.


“A taste of romance” de Lee Rose (EUA, 2012) e um daqueles filmes água com açúcar produzido para exibição em canais de TV e venda em DVD, diversão para uma tarde de chuva. O filme conta o que acontece quando um bombeiro aposentado resolve virar cozinheiro e abre um restaurante de comida simples, que agrada aos seus ex-colegas de profissão, um grupo de bombeiros que logo transforma o local num point agitado e barulhento, bem ao lado de outro local comandado por uma chef francesa de formação clássica. Apesar do viés romântico do filme (como muitos outros do gênero) ele também mostra como é possível em tempos de crise, que a concorrência seja saudável e benéfica para todos, tornando o pesadelo em algo doce e saboroso.

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