terça-feira, 3 de novembro de 2015

Uma volta pela Espanha, Perú, EUA, Japão e Holanda através da cultura alimentar.



Toda semana trazemos indicações de filmes aqui e em nossa fanpage, em sua maior parte documentários que tratam da cultura alimentar de um país, região ou grupo. A maioria dessas produções são estrangeiras e muitas das vezes não as vemos no Brasil, ainda assim não desistismos de comentá-las, afinal, podem servir de motivação para produções locais, referências para pesquisas e estudos sobre a alimentação no mundo e cinema propriamente dito, e com alguma sorte despertar o interesse de algum distribuidor no nosso mercado de audiovisual.

É interessante como a maioria dessas produções surgem para alertar sobre a importância de tradições locais, afinal, a cultura alimentar de um povo diz muito sobre ele e sua história. Portanto, manter viva a forma de produzir algo é manter vivo o que os difere dos demais, além de ajudar a garantir sua soberania alimentar.

Nesta semana há muita coisa da Espanha (país pelo qual esta blogueira tem especial apreço, já que vivi lá entre os anos de 2008 e 2010, período em que aprendi muito e me deliciei com a fantástica cozinha basca e saborosíssima culinária mediterrânea), produções estas que falam das tradições gastronomicas da Galícia, de Euskadi (País Basco) e de boa parte do território espanhol e seus celebrados chefs de cozinha. Trazemos um documentário dos EUA sobre uma revolução que está sendo travada em algumas comunidades à partir da produção do alimento justo, produzido através de sistema alimentar local economicamente resiliente. Tem também um documentário muito bacana sobre a ascensão da gastronomia peruana nos últimos anos, filme no qual o diretor utiliza o ceviche como ponto de partida e orientação para uma grande viagem pelas tradições do país. E do Japão, um documentário que mostra a bebida mais emblemática e cultuada naquele país: o saquê, e como ela ainda é pouco apreciada em outras partes do mundo. Da Holanda, um documentário sobre a tradicional pesca do Arenque, peixe importante na economia e história do país desde o século 19. Além disso, trazemos também um pouco de diversão, na verdade um filme da categoria pipoca produzido em Bollywood, a meca do cinema indiano, onde o protagonista, um sous chef com queda por belas mulheres passa o tempo entre a cozinha de um grande hotel e alguma encrenca.

Então, vamos conhecer o cardápio da semana...





"Snacks, bocados de una revolución" um documentário de Verónica Escuer e Cristina Jolonch (Espanha, 2015) foi lançado em Madrid em maio deste ano e esteve presente no Film&Cook Festival de Cinema y Gastronomia e no último Festival de Cinema de San Sebastian "Culinary Zinema" todos na Espanha. O filme trata da origem, evolução, e do estado atual e futuro da cozinha espanhola, concebida como um movimento que introduziu a liberdade criativa e conceitual como regra básica do jogo ao redor do mundo. O filme narra como três gerações consecutivas de chefs espanhóis mostraram ao mundo que o epicentro da criatividade culinária estava em seu país. O documentário traz os grandes chefs espanhóis: Ferran Adrià, Joan Roca, Juan Mari Arzak, Martin Berasategui, Andoni Luis Aduriz, Carme Ruscalleda, Pedro Subijana, Quique Dacosta, Eneko Atxa, Paco Perez, Albert Adrià, Dani Garcia, Angel León e Josean Alija, bem como, seus parceiros internacionais: Grant Achatz dos EUA, o brasileiro Alex Atala, o italiano Massimo Bottura e o peruano Gaston Acurio, e outros envolvidos nesta revolução como Roser Torras e o crítico gastronômico José Carlos Capel. O filme será lançado através de uma plataforma digital, enquanto se prepara para estrear ainda este ano em Nova York, seguido de Londres e Edimburgo, e conta com a possibilidade de ser comercializado através do iTunes ou da televisão. Para quem mora na Espanha já é possível comprar o dvd na FNAC e no Corte Inglés.

 “Cocinando en el fin del mundo” de Alberto Baamonde Bello é um documentário sobre a nova cozinha galega é sua inclinação para explorar o passado, para recuperar os sabores que a modernidade tem deixado para trás, para dar dignidade aos produtos considerados de menor importância. O Grupo Nove é uma associação de chefs que promovem esta cozinha é o futuro além dos clichês. Um retrato realista da Galícia na tentativa de desvendar, através da gastronomia, o frágil equilíbrio entre tradição e modernidade em uma terra de contrastes. O filme é uma viagem através dessa região espanhola e foi exibido na seção Culinary Zinema: Cinema e gastronomia do 63º Festival de Cinema de San Sebastian.


“Sagardoa bidegile” em espanhol “Historias de Sidra” de Bego Zubia Gallastegi (Espanha, 2015) é um documentário sobre a sidra, bebida que desde muitos séculos é produzida e consumida pelos bascos, mas no País Basco (Comunidade Autônoma situada ao norte da Espanha, lugar que conheço bem, pois vivi lá de 2008 a 2010) ela é mais do que suco de maçã fermentado e é disso que esse documentário trata. Como uma proposta de viagem cultural, gastronômica, histórica e científica a sidra é sem dúvida a protagonista, e ao longo do filme é possível conhecer seu processo de elaboração que segue técnica tradicional do século XVI. A sidra está presente nas casas bascas, festas, nos restaurantes típicos chamados de Asadores e nos bares, mas seu gosto é diferente da sidra produzida e consumida em algumas partes aqui do Brasil. Este filme foi exibido na sessão Culinary Zinema 2015 do Festival de Cinema de San Sebastián, Espanha.


“Edible City: Grow the Revolution” é um documentário de Andrew Hasse (EUA, 2014) que conta a história de pessoas extraordinárias que estão trabalhando para transformar suas comunidades e fazer algo verdadeiramente revolucionário, criando bons sistemas alimentares locais, que sejam socialmente justos, e economicamente resilientes. O filme mostra o desafio enfrentado por pessoas que desafiam o paradigma do nosso sistema alimentar falido, e de como vão fundo em perspectivas únicas e no trabalho de transformação, encontrando soluções inspiradas e com base no crescimento de sistemas alimentares que fortaleçam as economias locais. É possível assistir ao documentário em inglês pelo serviço on demand no site do filme.


"ADN du ceviche" (El ADN del ceviche) de Orlando Arriagada (Canadá, 2015) é um documentário que através do ceviche, um dos pratos mais emblemáticos e conhecidos da cultura peruana fará uma viagem gastronômica pelo país, tendo o prato como fio condutor. Na última década, o Peru conquistou o mundo com sua gastronomia engenhosa, saborosa e muito diversificada. Sua estrela é o ceviche, uma preparação de peixe cru marinado em limão, servido com pimenta Aji, batata doce (camote), mandioca e milho. Viajando ao longo da costa norte do Peru, Amazônia e Lima, este documentário explora os aspectos históricos, culinários, ambientais e sociopolíticos deste prato originalmente da costa peruana, preparado e consumido em todo o país em sua forma ancestral, desde a era pré-colombiana. Reconhecido mundialmente por sua cozinha, o nível culinário do Perú continua a destacar-se, ganhando espaço na Europa e Ásia. O ceviche, a principal especialidade do país, tem várias características, tudo varia de acordo com a localização regional. Navegando pela costa norte do país, por sua capital e a Amazônia peruana este documentário encontrará muitos chefs de renome, como: Gaston Acurio e Javier Wong, pescadores, historiadores e muitos outros personagens que farão deste filme mais que uma aventura histórica e gastronômica, uma requintada experiência pelo Perú.


“Kampai! For the Love of Sake” documentário de Mirai Konishi (Japão, 2015) fala da culinária japonesa, que é agora uma das culinárias mais populares em todo o mundo. No entanto, há um componente essencial que frequentemente falta nas mesas de restaurantes japoneses internacionais: o saquê. A bebida que muitas vezes é chamada de vinho japonês é uma bebida alcoólica feita de arroz fermentado e tem uma ampla gama de variedade. Esta bebida especial tem uma longa história junto da cultura japonesa, mas fora do Japão, ainda é pouco conhecida e um tanto quanto inacessível, o que torna muito difícil desfrutar da bebida para aqueles que a estão provando pela primeira vez. Por isso, um fabricante de cerveja britânico, um jornalista americano e um jovem presidente de um centro de produção de saquê no Japão, se unem para explorar o mundo misterioso da bebida. O filme mostra como esses indivíduos ficam fascinados com esta bebida extraordinária de origem japonesa e como enfrentam os desafios da indústria atual, investigando sua rica, complexa e espetacular produção.


“Raw Herring” título original “Hollandse Nieuwe” é um documentário de Leonard Retel-Helmrich e Hetty Naaijkens-Retel Helmrich (Holanda, 2013) que conta a história da tradicional pesca do arenque, uma atividade que tem origem ainda na idade média e que nos dias atuais perdeu força, contando com apenas duas embarcações que realizam a pesca sob a bandeira holandesa. O filme mostra os últimos pescadores de arenques do país. O que por mais de mil anos foi um fenômeno, portanto, algo inseparável da cultura nacional holandesa, hoje já não tem a mesma força, apesar de anualmente milhões de holandeses em seu país ou fora dele, estarem com o olhar atento à notícia da chegada do primeiro barril de peixe ao porto. Este é um filme sobre os últimos e verdadeiros pescadores do arenque holandês, a partir do ponto de vista deles próprios e de seu trabalho nas embarcações, algo a ser comemorado já que a tradição e a glória de outros tempos, aos poucos, está desaparecendo. O filme foi exibido em canal de TV local em seu país de origem e vem participando de festivais de cinema pelo mundo. Neste ano esteve presente na programação do Food Film Festival em algumas cidades da Holanda.


O filme "Love Khichdi" de Srinivas Bhashyam (India, 2009) é um desses filmes produzidos em Bollywood repleto de belas mulheres, muita dança e música que conta a história de um rapaz que vai trabalhar como sous chef de um grande hotel e passa boa parte do tempo se envolvendo com todas as mulheres que cruzam seu caminho, até o momento em que tudo muda. Esse é um daqueles filmes para assistir comendo pipoca, sem esperar grandes reflexões, apenas diversão.

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