quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Troco Chef de Cozinha pelo “Virado de Feijão de minha Avó” por Orlando Baumel.

(Foto do arquivo pessoal do Chef Orlando Baumel)  


Não tenho muitas “lembranças gastronômicas”, destas que inspiram muitos Chefs de Cozinha. As que tenho, resumem-se aos dias que morei com minha avó em uma pequena cidade do interior do Paraná. De lá trago minhas convicções por uma gastronomia voltada a produtos regionais, valorizando o que a terra em que você vive oferece.

Não quero dizer com isto que seja contra a utilização de outros ingredientes produzidos longe de nosso habitat, nem de equipamentos de tecnologia avançada, destes que chegam a cozinhar sozinhos. Apenas gosto de comida sem rodeios, sem as firulas tão inerentes a prática gourmet.

Durante boa parte de minha vida, trabalhei como músico, onde tocar na noite era quase uma obrigação para sobreviver. Neste tempo, comer de madrugada era minha rotina. Sair do bar e ir “jantar” às 3 da madrugada era normal. Os bares que funcionavam 24 horas em Curitiba eram vários. A vida era mais segura, mais tranquila, mais alegre. Nestes lugares, a comida servida era simples, por razões lógicas. Passando pelo Pão com Pernil e Verde do Bar Mignon até o Churrasco Paranaense do Bar Palácio, o que serviam era “comida de verdade”, preparada com o principal ingrediente da cozinha: a paixão por cozinhar.

Acredito que foi nesta época que meu interesse pelas panelas veio mais à tona. Ali, naqueles bares enfumaçados, entre tantos boêmios famintos, vendo cozinheiros e chapeiros se desdobrarem para atender a todos, vi que a cozinha é acima de tudo um mundo à parte, um mundo onde o trabalho em equipe é fundamental.

De lá para cá, mergulhei fundo no mundo da Gastronomia. Estudei, pesquisei, conheci diversos Chefs, cada um com seu jeito e especialidade, mas todos trazendo algum ensinamento. Conheci outras culturas, outras comidas, outras maneiras de cozinhar. Durante este tempo, o Brasil começou a ter acesso a ingredientes antes impensáveis ou caros demais para frequentar a mesa dos meros mortais. A Gastronomia atingia outro nível, um padrão que estava fora do normal da grande maioria da população.

Técnicas novas, equipamentos fantásticos começaram a fazer parte da cozinha dos restaurantes mais “descolados” das cidades. Os cursos de Gastronomia começaram a surgir, prometendo formar Chefs em pouco tempo, dando ao mundo da cozinha um glamour que está longe de ser realidade.

Torno a dizer que não sou contra toda esta modernidade. Considero que a Gastronomia divide-se em antes e depois de Ferrian Adriá. Acho fantástica a Cozinha Molecular, mas decidi manter meus pés no chão e me dedicar a uma Gastronomia mais ligada a nossa realidade.
Há sete anos, quando idealizei o site OBA Gastronomia, esta minha convicção firmou-se ainda mais. Um site de receitas que atinge milhares de leitores todos os dias não pode se dar ao luxo de querer ensinar uma dona de casa a preparar uma “sopa encapsulada” ou uma “caipirinha com nitrogênio líquido”. O que passamos no site é a comida “possível” dentro de uma cozinha normal. Assim como não posso passar todas estas novidades futuristas, não devo exigir que a mesma dona de casa prepare um Demi Glace, um processo de horas (e até dias) para obter uma base para molhos escuros. O mundo exige pressa.

Claro que nesta pressa não incluo fast food. A comida deve ser saborosa e, acima de tudo, saudável. O que eu não abro mão em uma cozinha normal é o carinho utilizado no preparo de qualquer prato, desde o mais simples até o mais refinado.

Numa época onde o acesso à informação é gigantesco, onde programas de culinária pululam aos montes na tela da TV, onde em cada esquina você dá de cara com comidas “à jato”, onde Chefs aparecem tendo faniquitos em suas cozinhas, eu prefiro a simplicidade nas panelas, a simplicidade feita com capricho e respeito ao que cozinhamos, ao que nos propomos a servir.

Ser Chef não se aprende, é uma condição que atingimos naquele mundo da cozinha, onde a dedicação ultrapassa qualquer limite que possamos imaginar, onde abdicamos de prazeres comuns para viver no calor do fogão. Esta é a minha Gastronomia.

No mais, continuo em um eterno aprendizado, respeitando todos que convivem neste meio, sejam eles modernos, tradicionais, ranzinzas ou afáveis. O que não mudo é meu amor pelos ingredientes regionais, frescos e fáceis de encontrar. Meu amor por “comidas de verdade”. Meu amor pelo “Virado de Feijão” de minha avó.

Orlando Baumel
Chef de Cozinha e Músico
Proprietário do Site OBA Gastronomia

***

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Recebemos seu comentário logo ele será publicado. Obrigada pela visita!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...