sábado, 24 de outubro de 2015

Filmes sobre comida. Mais do mesmo, mas não aqui.



Há mais de um ano e meio pesquiso o segmento de cinema que produz filmes com temática gastronômica, vale lembrar que minha definição de gastronomia parte do conceito elaborado ainda no século 18 por Brillat-Savarin (1755-1826) “A gastronomia é o conhecimento fundamentado de tudo que se refere ao homem na medida em que ele se alimenta. (...) “ e o cinema é a forma mais acessível de diversão e conhecimento das massas e apesar disso muito do que tem sido produzido não chega às salas de cinema, tão pouco é distribuído, por isso, a maioria dos textos que encontro tratam sempre dos mesmos filmes.

É comum eu me deparar com: top 10; os melhores filmes sobre comida; filmes que dão água na boca; e por aí vai. Porém os comentários, às vezes longas resenhas, são mais do mesmo, tudo porque só se comenta o que é sucesso de público. Se você buscar na internet agora por tags como: filme gastronômico; comida no cinema; food film; comida e cinema; é bem provável que obtenha os seguintes resultados: A Festa de Babette (1987), Tampopo - Os Brutos Também Comem Spaghetti (1985), A Grande Noite (1996), Julie & Julia (2009), Ratatouille (2007), Chocolate (2000), Sabor da Paixão (1999), Alimento da Alma (1997), Como Água para Chocolate (1992), Comer Beber Viver (1994), Simplesmente Martha (2002), Vatel - Um Banquete para o Rei (1999), Sabores da Vida (2001), Garçonete (2007), Tempero da Vida  (2003), Estômago (2007), O Sabor de Uma Paixão (2008), Sem Reservas (2007), Românticos Anônimos (2010), Toast (2010) e os recentes: Como um chef (2012), Chef (2014), Os sabores do palácio (2012), A 100 Passos de um Sonho (2014), o que não é nenhum problema, todos os títulos citados fazem parte da nossa lista de “Filmes que são uma delícia” e eu vi todos eles, a questão é que blogueiros apaixonados pelo assunto acabam reproduzindo até esgotar a mesma lista. Desta forma, como vamos reivindicar novos títulos para distribuição no Brasil se não conhecemos o que está sendo produzido nos quatro cantos do mundo?

Hoje a maior produção é de documentários que tratam desde o serviço escravo nas grandes plantações à produção de OMG’s, da inovação da cozinha molecular à volta às tradições através de uma cozinha de raiz, etc.. Filmes de ficção para atrair o grande público, comédias e dramas são bem vindos. Mas por que o cinema documental, biográfico e reflexivo é tão pouco apreciado? Foi num impulso curioso que eu desvendei um mercado em franca expansão, o cinema da comida e da bebida. Um cinema que alimenta muito mais que estômagos, alimenta memórias e preserva tradições que aos poucos estão se perdendo em muitas partes do mundo.

Já comentei em vários textos que “comer é um ato político” e isso não é frase minha, na verdade é uma afirmação que muitos pensadores, pesquisadores, intelectuais engajados na luta pelo alimento justo, pela soberania e segurança alimentar, pela luta contra os agrotóxicos e OMG’s utilizam em seus livros, discursos e filmes. Sim! Tudo isso está nos filmes que tenho apresentado aqui, com pequenas notas e comentários que garimpo na internet, às vezes depois de ver o filme na língua original ou perguntando ao diretor e produtor por email sobre este ou aquele detalhe, para em seguida publicar aqui e na nossa fanpage.

Hoje trago produções atualíssimas que estão sendo lançadas nos festivais internacionais de cinema que acontecem sempre no segundo semestre de cada ano, festivais consagrados que acordaram para importância do tema alimentação e criaram categorias próprias para receber e premiar o que adotei chamar aqui de food & wine films, com isso espero que mais gente sinta interesse em ver esses filmes sendo exibidos em cinemas brasileiros, em festivais nacionais, distribuídos em DVD ou nas TVs por assinatura.

Espero que gostem desta seleção.


“Midnight Diner” original “Shinya Shokudo” de Joji Matsuoka (Japão, 2015). A vida moderna no Japão é esmagadora, certamente mais evidente em sua capital, Tóquio. No entanto, mesmo com os valores fundadores do Japão afetados pela agitação e correria cotidiana a polidez abunda em cada lugar que oferece um serviço, a limpeza é primordial e mais importante, a comida é sempre bem apresentada e respeitosamente consumida. O diretor Joji Matsuoka criou neste filme uma maravilhosa janela para apreciação da comida japonesa, essencialmente, uma fatia da vida na Tóquio moderna, onde um grupo distinto de indivíduos, jovens e velhos trazem consigo os encargos do seu dia e juntos num lugar pequeno, mas com muito respeito dividem o momento do jantar. Cada noite, eles são recepcionados pelo dono do local, e cozinheiro, que os recebe e oferece pratos que parecem absolutamente deliciosos. Adaptado de um drama de TV que por sua vez foi adaptado de um mangá, cada cena na versão cinematográfica gira em torno de um prato com assinatura do cozinheiro que o prepara para seus clientes. Ao redor de cada prato, novos personagens aparecem e envolvem suas vidas com o jantar de maneiras surpreendentes. É uma história humana, com pequenos momentos de generosidade e bondade, permeada por uma experiência de comfort food junto da culinária japonesa.


“O Sabor da Vida” cujo título original é “An” de Naomi Kawase (Japão, França, Alemanha, 2015) é um desses filmes ternos que só de ver o trailer dá vontade de assistí-lo inteiro e dessa vez é possível vê-lo em alguns cinemas da capital paulista que estão na programação da 39ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O filme é um drama repleto de doçura, respeito e amizade. Sentaro dirige uma pequena confeitaria que serve dorayakis - bolos recheados com pasta doce de feijão vermelho, o azuki -. Quando uma senhora de idade, Tokue, se oferece para ajudar na cozinha, ele aceita com relutância. Mas Tokue prova ter mágica em suas mãos quando se trata de fazer "an". Graças à sua receita secreta, o pequeno negócio logo floresce e com o tempo, Sentaro e Tokue abrem seus corações revelando velhas mágoas. Este filme está presente na programação de varios festivais internacionais de cinema e tem previsão de estreia no Brasil para dezembro deste ano.


“A Film About Coffee” de Brandon Loper (EUA, 2014) é uma carta de amor e reflexão sobre, cafés especiais. Ele examina o que é preciso, e o que isso significa para o café ser definido como "especialidade". O filme leva o público a uma viagem ao redor do mundo, de explorações agrícolas em Honduras e Ruanda até lojas de café em Tóquio, Portland, Seattle, San Francisco e Nova York. Através dos olhos e experiência dos agricultores e baristas, o filme oferece uma visão única de todos os elementos, processos, preferências e preparações; antigas e novas tradições que se juntam para criar as melhores xícaras. Este é um filme que preenche lacunas tanto intelectual, quanto geográfica, evocando sabor e prazer.


“Noma, My Perfect Storm” de Pierre Deschamps (Reino Unido, 2015) é um documentário sobre o célebre chef René Redzepi, no cenário de seu restaurante baseado em Copenhague, o NOMA, tido como melhor restaurante do mundo 2010, 2011, 2012 e 2014. O filme conta como ele conseguiu revolucionar todo o mundo da gastronomia, inventando o alfabeto e o vocabulário que conquistou o pedigree para a recém-descoberta cozinha nórdica. E como estabeleceu um novo mundo comestível enquanto mudava radicalmente a imagem do chef moderno. Sua história parece um clássico conto de fadas: o patinho feio transformado em um majestoso cisne, que agora reina sobre o reino da moderna cozinha gourmet. Mas sob a superfície polida, rachaduras aparecem na forma de velhas feridas. O ano de 2013 permanece como o pior ano da carreira de René Redzepi. O diretor e sua equipe seguiu o chef dinamarquês em sua luta e em seu caminho de volta ao topo, reinventando NOMA e reivindicando o título de melhor restaurante do mundo em 2014 pela quarta vez. "Noma, My Perfect Storm" é uma viagem criativa na mente de René Redzepi. (este filme esteve presente no Festival de Cinema de San Sebastian, Espanha, e estará em festivais do Japão, Dinamarca e EUA neste mês de novembro).


“Sikh Formaggio” é um documentário biográfico de 22’ dirigido por Devyn Bisson, Katie Wise e Dan Duran (Itália, 2014) que, mais que um filme sobre comida (neste caso o parmesão Formaggio produzido na cidade de Cremona situada na região da Lombardia, Itália) vem mostrar a herança cultural de dois povos e a dinâmica que mudou o cenário internacional. Como as pessoas nos países em desenvolvimento fazem sacrifícios trabalhando como assalariado, e por sua vez ajudam a salvar as tradições de outros países. Com lindas imagens de vilas italianas e de templos Sikh locais, este pequeno documentário, explora a ponte entre duas culturas cujas semelhanças e diferenças se misturam para a melhoria do “outro”. Emigrar da Índia para a Itália em busca de empregos semelhantes às suas raízes agrícolas, fez com que os Sikhs encontrassem trabalho na indústria do queijo parmesão. Ao mesmo tempo em que eles tentam manter sua cultura e tradições fortes na nova terra, eles também ajudam a preservar um pedaço da cultura italiana através da arte de fazer o queijo. Esta não é a história de um indivíduo, mas de uma comunidade e sua tradição. À medida que a geração mais jovem passou do campo italiano para as cidades, a agricultura e os fabricantes de alimentos artesanais tiveram de se adaptar a novas circunstâncias e a produção do queijo do norte da Itália não foi exceção. Empregando mais de 10.000 imigrantes Sikh, vindos da Índia, eles puderam garantir o queijo parmesão em suas (nossas) mesas.


Produzido em 2014 e lançado em fevereiro deste ano nos EUA "Deli Man" de Erik Greenberg Anjou é um filme sobre a comida judaica, mas...mais que isso, o filme mostra que a comida delicatessen está perto de uma experiência religiosa. Documentário produzido e dirigido por Erik G. Anjou é o terceiro trabalho em sua trilogia sobre a cultura judaica (“A Cantor’s Tale” e “The Klezmatics - On Holy Ground”), que têm sido exibido em mais de duas centenas de festivais internacionais de cinema e foram transmitidos nos EUA, Israel, Canadá e Polônia. O protagonista de "Deli Man" é o efusivo e charmoso Ziggy Gruber, homem delicatessen de terceira geração, proprietário e especialista (um chef de língua iídiche-francês) que está à frente de uma das principais "delis" dos EUA a Kenny and Ziggy’s na cidade de Houston no Texas.


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