quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Enogastronomia e a herança de imigrantes italianos no sul do Brasil: Bento Gonçalves-RS.

(Fotos: Caminhos de Pedra)

Há quase duas décadas atrás estive hospedada no Hotel Dall’Onder (patrocinador do restauro de algumas das moradias que visitei) em Bento Gonçalves-RS enquanto fazia o conhecido Circuito das Uvas (e dos Vinhos) pelas cidades daquela região. Um dia o grupo com o qual eu estava foi fazer um passeio pré-agendado e eu resolvi ficar. Para minha surpresa um funcionário do hotel me perguntou se eu não queria fazer um passeio alternativo, algo novo que poucas pessoas conheciam, ele se referia aos turistas porque para os moradores da região aquela rota era muito íntima e pessoal, pois fazia e faz parte da história deles. Foi assim que em 1994 conheci o “Caminhos de Pedra”.

Durante o passeio fiz lindas fotos, experimentei vinhos artesanais, copas, queijos e salames, visitei um Moinho Artesanal, a Casa de Erva Mate com sua roda d’água, a Casa Merlin e pude conhecer um pouquinho da Itália em terras gaúchas.

Hoje, arrumando umas coisas aqui em casa encontrei um suplemento de turismo cuja matéria de capa era justamente o “Caminhos de Pedra”, roteiro obrigatório para o viajante que quer conhecer a preservada cultura italiana naquela região e resolvi recordar um pouco daquele dia.

Espalhada por sete comunidades de Bento Gonçalves o “Caminhos de Pedra” apresenta ao visitante um dos mais expressivos acervos arquitetônicos herdado dos italianos no interior do Brasil, segundo o IPHAN são 68 bens imóveis em pedra, madeira e alvenaria, construídos a partir de 1875. Em 2009 o roteiro foi declarado patrimônio histórico cultural do Rio Grande do Sul.

O patrimônio imaterial também se faz presente através das tradições culinárias, artesanato e grupos artístico-culturais que promovem o resgate e elevação da cultura da região. A música, a dança, o teatro e o canto representam a tradição e herança italiana na comunidade.

A lembrança mais marcante foi a visita a Casa Merlin, na época o casal Avelino e Maria Merlo (já falecidos) nos receberam e mostraram a casa. Construída em 1889 com pedras de basalto irregular de cor preta, unidas entre si com uma mistura de feno, palha de trigo e estrume de vaca destaca-se pelo sótão, que servia para armazenagem de grãos e forragens e também como isolante térmico no inverno. Na saída a simpática Maria Merlo fez questão de nos acompanhar à porta de sua encantadora casa, cercada de flores.

O primeiro grupo a visitar o então nomeado “Caminhos de Pedra” em 1992 foi um grupo de turistas de São Paulo, de lá pra cá a cidade de Bento Gonçalves e suas comunidades recebem cerca de 60.000 turistas anualmente.

O interessante é que a iniciativa idealizada em 1987 pelo engenheiro Tarcísio Vasco Michelon e o arquiteto Júlio Posenato além de garantir o resgate do patrimônio que estava fadado a desparecer, potencializou o que as comunidades tinham/têm de mais rico e significativo: sua vocação para o turismo histórico e cultural, abarcando a memória histórica, a tradição culinária, a produção do vinho, as festas populares, a arquitetura e a paisagem. Garantindo assim, a permanência de jovens na região que hoje estão à frente dos negócios que o “Caminhos de Pedra” estimulou, aquecendo a economia local e preservando a memória e cultura herdada dos primeiros italianos que ali chegaram por volta de 1875.

Para os interessados em enoturismo, enograstronomia e turismo de experiência  o “Caminhos de Pedra”, bem como outros roteiros espalhados pela região são sem dúvida uma ótima opção. Eu recomendo!


** Próxima parada: Bituruna-PR.

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