quinta-feira, 11 de setembro de 2014

D.O.C – Denominação de Origem Controlada.

(Grana padano é um queijo italiano típico da Planície Padana - Foto: Imagens Google)

O brasileiro tem que aprender a valorizar o que é seu e parar de babar na cultura do outro. Podemos sim fazer aqui comida de todos os "tipos", tipo italiana, tipo espanhola, tipo japonesa, etc., mas observando sempre substituições inteligentes, criativas e possíveis com os ingredientes que temos à mão. Bons produtos, criatividade e afeto é o que garantem o sabor de qualquer prato em qualquer lugar do mundo. Todo esse papo de D.O.C. e comidinhas Gourmet que têm tomado conta das redes sociais e programas de TV, nada mais é que uma maneira de arrancar mais dinheiro do consumidor, e pior que isso é a necessidade que o homem tem de se autoafirmar através do consumo de modismos.

D.O.C.- Denominação de Origem Controlada (e a protegida D.O.P) encontramos em produtos importados que chegam ao Brasil com esse selo diretamente do produtor para nossa mesa, importados, que a maioria dos brasileiros não consomem porque não podem pagar.  Então, me pergunto: - Como garantir D.O.C. de pratos oferecidos em restaurantes brasileiros como sendo comida X ou Y e não comida “tipo” X ou Y? Como garantir que um salmão é o originalmente selvagem pescado no Alaska, se a maioria que chega à nossa mesa vem de criadouros chilenos, onde recebem ração e atingem o tamanho adequado, para em seguida serem transportados pela LATAN para o Brasil? Outro exemplo, nossa farinha de trigo, ingrediente básico para produção de massas, pães, doces e pizzas, em nada se parece com a farinha produzida na Itália. Na América como um todo, muito é acrescido na moagem e no processo de branqueamento da farinha, todo esse beneficiamento acaba por empobrecer a farinha, assim que não é possível compará-la a utilizada por uma “Mama” italiana na elaboração artesanal do seu espaguete.  Enquanto muitos países europeus acordaram para a questão do alimento processado seguindo em direção inversa, rumo à culinária tradicional, mais próxima do pequeno agricultor, das hortas comunitárias, dos alimentos orgânicos e dos saberes e fazeres familiares, o Brasil está na fase de consumir produtos de Chefs Estrelas Internacionais e todo tipo de Alimento Gourmet que seja a bola da vez.   

Na contramão disso tudo, temos alguns Chefs brasileiros se dedicando, e por conta disso se destacando da maioria, à pesquisa e à preparação de pratos com D.O.C.  buscando na vasta produção nacional e nos produtos regionais a inspiração para criar pratos 100% brasileiros, isto é inovação e criatividade.  Eu sou paulista e vivo há poucos anos em Curitiba, vivi na Europa pouco antes de vir para cá e vejo que aqui tem muito disso, uma cidade que se intitula como “a mais europeia do Brasil” tem refletida em sua gastronomia local a grande necessidade de se afirmar valorizando a cultura gastronômica do “outro”.  

Para mim, a experiência gastronômica é algo infinitamente pessoal, provar outros alimentos e culinárias é algo maravilhoso, nos ajuda a entender outras culturas e a nossa também, nos faz ver o mundo de maneira global e sem fronteiras. Eu estaria sendo hipócrita se não dissesse o quanto é bom poder apreciar um Jamón Pata Negra ou Serrano, um vinho de La Rioja, um Grana Padano, Parmigiano Reggiano ou Pecorino Romano, etc.. Mas quem pode pagar por isso? Hoje ir ao um determinado restaurante para uma experiência "gourmet" é puro fetichismo, no melhor sentido dado por Walter Benjamin à palavra.

Não sou especialista em gastronomia, sou uma diletante preocupada com conhecimento e as experiências afetivas que a comida pode me proporcionar. Por isso, tenho tentando entender o fenômeno que a gastronomia se tornou no mundo e no Brasil através de leituras, mas, sobretudo, indo pra cozinha, pondo a mão na massa, preparando pratos para família e amigos.  Minha experiência não se dá em grandes e comentados restaurantes da moda, minha experiência e construída pela observação, pelo empirismo, por memórias e mais ainda, pelos erros e acertos.

Confesso que esta fase tem me ensinado muito e propiciado momentos, deliciosamente, felizes, sem a necessidade de me ver sentada numa mesa repleta de guarnições, num restaurante com fila de espera que ostente umas quantas estrelas Michelin. Para mim uma cozinha com cheiro de pão assando, lenha queimando, conversa e risos no ar já está para lá de bom. A D.O.C. da minha cozinha será sempre a culinária afetiva elaborada por memórias e muito amor.

***

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Recebemos seu comentário logo ele será publicado. Obrigada pela visita!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...